Lembranças de maio...
Mais um dia se passou e eu me pergunto aonde você está. O teu sorriso não vi mais, mas me lembro bem, esteve incrustado em mim por eras. Você me fez te amar. Você me fez sofrer. E eu não queria. Sonhei que algum dia tudo pudesse mudar, foi um grande erro meu acreditar. Emoções são um perigo, algo que pode te afundar nas profundezas mais sequiosas da alma. É preciso conter as emoções; é preciso ter domínio acerca dos sentimentos senão estes te levarão a derrocada. O amor é curioso, me levou a fazer coisas de que me arrependo ou tenho vergonha de admitir, me deixou patética. Eu não posso fazer as coisas voltarem, mas mesmo se pudesse, não faria nada diferente do que fiz antes, mesmo já sabendo o que ia acontecer. Apenas saber não ajuda em nada, às vezes as melhores coisas da vida não fazem sentido, muito menos as piores. Meus olhos já não se arrasam em lágrimas. As minhas fraquezas já não estão mais expostas, eu não sou mais um mártir. Meu desprezo e minha aversão cresceram juntos, mas hoje não me afetam mais, Eu cheguei a te odiar e acabei odiando esse meu ódio, é preciso reservar-se para o inimigo mais digno.
O mago age com desembaraço, encena verdades, qual palhaço, tudo lhe cai bem... gente acomodada, caindo em migalhas. Falsos valores, adulações, discursos repletos de frases-feitas, tantos clichês! Ainda não sei quais foram as mentiras, acho que seria mais fácil tentar saber quais foram as verdades, se é que houve alguma. Toda palavra é doce, toda palavra é crueldade.
Minha história é a de um sonho que sonhei, mas sonhos são traiçoeiros, intrigantes e sombrios, apenas fantasia. Eu não consigo me lembrar dos meus sonhos quando acordo, às vezes fico furiosa, outras preocupada. Noutras vezes falo comigo mesmo, um monólogo sem sentido que se torna um silêncio insidioso, então fecho os olhos e escuto a sua voz.
Tudo vai quando é preciso, tudo torna quando é necessário. As lembranças insistem em me acompanhar e então a saudade vem, não tem pena, me maltrata com tanta força que nem consigo reagir. Me entrego a recordações e devaneios mas logo estes somem como se fossem magia, uma memória turva.
Nunca passou pela minha mente o que ia acontecer. Queria que o tempo parasse, que não tivesse acabado. Tudo foi uma ilusão que me fez questionar a natureza das coisas, a realidade. Nenhum fato pode ser destruído, mesmo com todas as mentiras e traições, não posso me esquecer do passado que existiu nem dos acontecimentos, posso apenas guardá-los num lugar onde eles não me consumam.
Às vezes me pergunto se teria sido tudo diferente se eu não tivesse dado vazão a minha raiva. Ou então no que teria acontecido se os sonhos que nós partilhamos não fossem apenas sonhos que acabaram sendo chacinados pelo destino. Às vezes me pergunto se eu tivesse te humilhado em todas as ocasiões em que tive oportunidade, você teria se lembrado em me respeitar ao menos uma vez. Ou se simplesmente eu tivesse te ignorado você não me trataria com tanto desdém. Poderia ter sido tudo diferente, mas foi igual e sempre vai ser assim.
Eu tentei demais, arrisquei tanto e acabei perdendo toda esperança em você. Eu tentei me manter afastada mas a minha vontade só me fez querer voar pra dentro de ti. Você foi um vício, levou a minha paz. Você roubou o pouco que eu tinha em você, aquele pouco que eu pedi e você me negou. Você passou e deixou marcas tão profundas... Me virou as costas quando eu mais precisei, mas eu fui mais forte, o meu corte virou cicatriz.
Acreditei numa mentira que eu mesma criei, idealizei demais, confiei demais. Fui eu que me iludi...
Aquela pessoa maravilhosa não era tão maravilhosa como eu imaginava, era apenas uma pessoa vazia e que adora frustrar os outros. Aquele amor nunca existiu, aquele "nosso" sonho tão logo se acabou, os planos que traçamos juntos já não existem mais.
Sei que já tentei de tudo, sei que já não quero mais lembrar... Pra quê pensar em nós? Mas no íntimo eu não quero esquecer, no íntimo não admito ter sido esquecida.
O tempo passa devagar, ninguém me conta coisas novas e os dias são tão iguais e as noites tão vazias... tudo é alheio a minha vontade.
Queria ter tido a chance de corrigir e apagar, talvez pudesse juntar os meus pedaços ou me curar desse câncer que corrói o meu âmago...
Se ao menos eu pudesse te esquecer, quem sabe eu poderia voltar a ser.
"Eu te perdôo o que me fizeste, mas se o tivesses feito a ti mesmo, como poderia te perdoar?"